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Padrinho Eduardo, uma história com “Luz de Amor”




Quem vem ao Céu de Maria, tem a oportunidade de conhecer, lá na casinha do Daime, um homenzinho de 76 anos, dócil, agradável, e profundo conhecedor da doutrina do Santo Daime. É o Padrinho Eduardo.

Sempre junto das moças, desde os tempos em que viveu na floresta, ele é quem cuida das folhas nos feitios, e atualmente fecha os trabalhos no Céu de Maria. Sua simpatia e sua mensagem de paz conquista todos. Com sábia experiência, conta-nos um pouquinho da sua história de luz e amor, parcialmente compilada neste pequeno escrito, após algumas conversas e entrevistas.



 

Um brasileiro, filho da Amazônia

 

            Eduardo Salles Freitas nasceu no dia 7 de Setembro de 1929 em Taroacá, extremo do Amazonas, na fronteira com o Acre. Quando tinha 9 anos de idade saiu de casa para trabalhar no seringal como soldado da borracha. Sentiu a exploração dos patrões, que cada vez ficavam mais ricos, enquanto os seringueiros apenas conseguiam sobreviver. Na vida, teve a oportunidade de aprender outros ofícios, como o de carpinteiro, madeireiro, lavrador e ferrador. Nas chuvas constantes nos igarapés, carregava paus e erguia barracas, ocupando suas horas vagas fazendo artesanatos. Em Feijó, casou-se com Maria Brilhante, com quem teve quatro filhos. Perdeu um deles, mas Osmarina, Sebastiana e Antônio lhes presentearam com 14 netos.
           
Quando passou a morar em Rio Branco, foi apresentado ao Santo Daime e ao Mestre Irineu. Antes, disse conhecer a bebida que chamavam “porre do cipó”, mas o significado espiritual só veio mesmo com os ensinamentos do fundador da doutrina:

            Maria, cadê o Eduardo? – perguntava o Mestre Irineu.
            -  Tá em casa.
            -  Diz pra ele vir hoje tomar Daime mais eu. É bom.

            Para lá ele ia, até passar a morar no Alto Santo, pertinho do Mestre: “Antigamente os trabalhos não tinham os ‘vivas’. Foi chegando devagarinho”, recorda.

            Viveu três anos no Alto Santo, até se mudar para a Colônia Cinco Mil, com o Padrinho Sebastião. Passou logo a ser chamado de Padrinho Eduardo. Quando Sebastião Motta decidiu levar a doutrina para dentro da floresta, acompanhou-o até o vale do Rio do Ouro, onde abriram um vilarejo. Tudo era muito difícil no começo. Demoravam um mês de viagem pra pegar mercadoria, pois as canoas não passavam nas cachoeiras. Precisavam transportar tudo nas costas para pegar outra canoa embaixo. Depois de um tempo, a vida melhorou. Tiravam muita seringa, e tinham mais de quatro mil pés de jagube e chacrona, além de um roçado que garantia o sustento de todos. Ficaram no Rio do Ouro por seis anos até aparecer o dono das terras. Foi aí que mudaram para onde hoje é a Vila do Céu do Mapiá.

            Conta que chegaram ao igarapé do Mapiá, num chuvoso 22 de Novembro. No mesmo dia, Padrinho Sebastião foi ferrado por uma arraia e demorou seis meses para ficar bom. No Mapiá não tinha nada, e em menos de um mês todos queriam ir embora. Foi preciso fazer a limpeza do igarapé, da boca às cabeceiras, tirar todos os paus para passar as canoas. Foi difícil, mas devagarinho montaram a Igreja, foram surgindo as casas, e hoje em dia tem até telefone.

            A vida na floresta nunca foi fácil, recorda o Padrinho Eduardo. Já tomou picada de seis cobras, teve sete malárias, três no Rio do Ouro e quatro no Mapiá. Mas a presença do Padrinho Sebastião parecia mudar tudo: “Podia estar na maior agonia, que tudo o que se contava, ele respondia de uma maneira que ficava descarregado. Falava com amor, verdade e prazer. Era um homem honesto, dava valor a todos, com muita firmeza e tranqüilidade; dava atenção às crianças e às pessoas grandes”.  Foi no Mapiá que foram chegando novas influências, como a umbanda:

           
- Qual a finalidade desses trabalhos? Perguntou Padrinho Eduardo ao Padrinho Sebastião.
            - Eduardo, tudo existe, tudo Deus deixou, mas que não é doutrina, não é a doutrina do Mestre. Deus deixou tudo no mundo pra nós ver, e vamos ver tudo. Aqui entra aqueles que quiserem.

            Os caboclos e as entidades da umbanda pediam álcool, que o Padrinho Sebastião cuidou de disciplinar e doutrinar, dizendo que aqui nessa Força só seria permitido o sacramento do Santo Daime.

 


 

Doutrina e disciplina

Padrinho Eduardo conheceu a doutrina do Santo Daime com o Mestre Irineu, passou momentos difíceis na floresta com o Padrinho Sebastião, e acompanhou com o Padrinho Alfredo, a doutrina se espalhar pelo nosso país. Toda experiência de vida lhe ensinou que deve se primar pela disciplina e pelo cumprimento das normas.

Costuma recordar que todos que tomarem o Santo Daime e cumprirem as ordens do Mestre são salvos e perdoados, mas que não adianta só tomar e rezar. Devem rezar e pôr em prática, zelar e levar a sério, sempre lembrando que Deus está em tudo e em cada um. Oração tem que ser rezada com calma, devagarinho, e prestando atenção.

         
Glauco e Padrinho Eduardo

            Diz o que as mulheres têm que cantar sempre: “Se não agüentam tem que deixar para as outras, até poder voltar. O hinário aberto tem que ser cantado inteiro, não pode puxar hinos de outros hinários. O canto tem que passar sempre a firmeza de cada um, com amor e verdade, para ter força para ajudar aos irmãos na corrente. Para isso não pode ter ciumera na igreja, pois a cura é para todos”.

            Sobre os trabalhos, nos lembra que o mais sério é o feitio: “Quando o Daime está apurando é que Deus vem se aproximando. Por isso tem que ter muita concentração para fazer o Santo Daime, e não é todo mundo que pode. Essa conduta vale também para o salão, onde se deve fazer sempre belezura, e não terrores. Trabalho de cura tem que ter calma e tranqüilidade, senão não cura. Tomar Daime é pra uma finalidade só, a salvação. Bebe para limpeza de espírito, pra receber a luz, se arrepender e ter salvação. O professor é o Santo Daime, e ele só ajuda se a pessoa merece”.

            “Não devemos esquecer da dieta de três dias antes e três dias depois do Daime, tanto para entrar quanto pra sair”, fala o Padrinho Eduardo – “a doutrina de Sebastião Mota é fora de toda vaidade, não se bebe bebida alcoólica”, e afirma: “Deus é a perfeição do sol, da lua e das estrelas, não tem moda, não tem modelo”, e adverte aos fardados: “No dia do trabalho precisa usar roupa da igreja, nada de roupa de passeio. São duas roupas: farda branca e azul. Nada de roupa da moda, pois o Mestre não consente. Todos devem se cuidar, virem limpos e arrumados, porque quanto mais sujeira, mais sujo o trabalho fica.”


            Para os fiscais, lembra que necessário prestar atenção pra não maltratar ninguém, e não pode deixar ninguém sair do trabalho, só depois que fechar: “também precisa vir pro mutirão, formar a corrente, ajudar uns aos outros, ir nas reuniões da igreja; isso é obrigação de todos nós, além da entrega dos trabalhos no dia de Reis”.

            Como lição, nos diz o Padrinho Eduardo: “Trabalho do Mestre tinha respeito, todos se cumprimentavam sem maldade. Tomar Daime pelos exemplos dos daimistas. Nem todos que tomam Daime são daimistas. Daimista tem que dar exemplo, dar valor aos irmãos. Para receber a cura tem que ter firmeza, calma e paciência, sentado no seu canto, senão não cura, perde o trabalho. Não tem tambor, não tem muito maracá. Cada um se componha e procure as linhas espirituais. Todos os trabalhos tem diferenças, não pode fazer coisa errada, senão só dá exu e pomba-gira. Não pode ficar zombando, nada é a toa, tudo é divino. Não pode abandonar os trabalhos para ir em festa, carnaval, é uma doutrina de Deus, a coisa é séria. Daime é divino, é a luz. Dentro do salão os homenstem que cortar os cabelos, como um príncipe. Tem que vir bem vestido, porque aqui é                                                      
Paula e o Padrinho
outra vida, não é mais a vida velha”.




Seres da Floresta

 

“Ouvi estrondos na madrugada, passou um planeta muito forte. Clareou o mundo inteiro. Tremores de terra, balança tudo, cai até as garrafas. Na mata assisti muitas coisas, cacei. Há 40 anos atrás trabalhava com os encantados. Observei as atuações dos encantados da água. Em Feijó, nos igarapés os encantados se reuniam. Vinham com calma nos aparelhos. Príncipes encantados e as sereias. Sempre seguindo o caminho da floresta, os bichos cantando, macacos, pássaros, papagaios, araras. Tem os encantados das matas, os olhos d’água, as vertentes. Via as visões da mata, os paus falavam, gemiam, estalavam. Eles conversam, as árvores uma com as outras. As flores se combinam, tudo no movimento da floresta. Visões tentavam assombrar mas eu não tinha medo. O Daime é pra salvar tudo que tiver vida, os aparelhos receberem os invisíveis para dar a luz aos invisíveis que estão sofrendo. Aprender amar a Deus sobre todas as coisas, deixar as coisas ruins que perseguem. Não podemos nos iludir, harmonia, amor, verdade e justiça”.

            Diz o Padrinho, que Marachimbé é um ser divino, disciplinador. Ajudante de Deus e das coisas boas, sempre com o chicote na mão. Currupipipiraguá é um ser das águas e do mar. Só não enxerga quem que não quer e não procura.

 
 

 

Vida para o Santo Daime

 

            Padrinho Eduardo está em São Paulo há quatro anos. Já visitou todas as igrejas da regional, e por onde percorre é recebido com todo carinho e respeito da irmandade. Apesar de estar atualmente muito ligado ao Céu de Maria, costuma ir sempre para o Céu do Vale em Pindamonhangaba, onde cultiva muitas amizades.

            Quando vivia na floresta, tinha recebido apenas dois hinos. Mas desde que chegou, começou a receber muitos, e hoje tem um hinário chamado “Luz de Amor”, que inclui diversos hinos ofertados para ele. A esposa, Madrinha Maria Brilhante recebeu o hinário que é cantado oficialmente em todo o festival, no dia de Santo Antônio, 12/13 de Junho. Seu filho Tonho, é um dos violeiros mais antigos do Céu de Maria.

            Ao falar do Mapiá, diz que tem muita saudade do povo de lá. Tem a esperança de um dia voltar, e diz se lembrar de todos: “não esqueci de nenhum”. Conta que as primeiras pessoas que conheceu de São Paulo, foram a Lu, o Glauco e a Paulinha, com quem mora atualmente. Aqui, teve a oportunidade de ajudar a curar muitas pessoas: “Já curei gente com câncer, cuidei, curei e casou”. E costuma lembrar a todos: “Daime é limpeza, limpeza pra chegar bem limpinho pra Deus”.


            Com essa vida de luz e amor, cura e muito estudo do Santo Daime, Padrinho Eduardo conquistou a simpatia de todos, onde quer que passe. Faz aniversário no dia 7 de Setembro, data da Independência do Brasil, que teve a oportunidade de percorrer. Quanto perguntado se gostaria de conhecer o estrangeiro, com toda tranqüilidade responde: “quero não, pra quê? É muito frio”.



                                                                                                                Padrinho Eduardo fechando o
                                                                                                                     trabalho no Céu de Maria

 

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Entrevista e Redação: Thomas Henrique                                       2º semestre de 2005
thomashenrique@yahoo.com.br                                  Fotos – Céu de Maria 25/01/2006

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